Quando o vento levanta uma saia

Você, meu amigo, que acha que o farol fica vermelho sempre na tua vez, ou bebem a última gelada do isopor logo quando você chega com sede, que o ingresso acaba, que o metrô fecha, que o maço termina. Você, meu amigo: já presenciou um vento desses que levantam uma saia justamente na hora que você passa?

Não vale Marilyn Monroe e outras deusas, essas enfeitiçaram todos, vento que bate e saia que levanta, muito que bem, memória coletiva dos barbados todos, mas tudo como mandou o diretor, o ângulo, a câmera, o anunciante. Aqui também não vale vento na saia da moça que é amiga do voyeurismo, a amiga que adoramos, elas que são sempre a favor do que é bonito tem que se mostrar, que se abrem toda ao menor sinal de olhar masculino.

Elas são ótimas. Todos gostamos delas.

 Mas não, para o caso da saia, não vale.

Aqui dá-se com a moça que não queria ter mostrado nada, pernas talvez, joelhos quem sabe, mas é só. Ela, intimidade enrolada na toalha e em frente ao guarda-roupa, quando escolheu sair assim de casa, queria nos matar com aquilo que não vemos, com nossa cabeça que não para, as histórias que contam as saias justamente pelo pouco que não mostram.

Aí, você passa. Bate o olho, nem percebe que é ela que está lá. E é nesse segundo que vem um vento, ironia das boas e saia para o ar, segundos de puro deleite, o de ver o espetáculo ali, sem lentes para atrapalhar, e da felicidade de estar lá naquele minuto, naquele segundo, naquele lugar.

Pensa, rapaz: é a mesma lógica de estar andando aí pela cidade e, pronto, cai um vaso nessa tua cabeça oca e te leva dessa para outra. Coisa de cinco segundos a mais ou a menos de banho, de conversa com a patroa, de briga com o vizinho, de demora a colocar o sapato, de cerveja com o bêbado camarada e pronto, o vaso teria caído um pouco para lá ou para cá e, em vez de uma cabeçorra amassada, sobraria só uma boa história de bar – e motivo para beber, afinal, quase um vaso te pega, andando por aí, do nada.

Estar lá no momento que o vento levanta a saia é saber que, mesmo na cidade do metrô, do ingresso e do farol, o acaso também sorri. E pra você.

O rosto lindo, vermelho, sorriso envergonhado de será que alguém me viu, vale mais do que saber se era branca, vermelha ou preta. Ela que ajeita o cabelo, segura a bolsa e dá seus passos em direção sabe-se lá para onde, olha para frente e só para frente, segura o riso, quer chegar logo em casa e contar a peripécia à mãe, tia, amiga, amigas, amigos, namorado, vai lá se saber. Em cada passo apressado uma poesia, em cada quase-risada uma bossa, nova.

E sim, era preta.



Escrito por Gabriel às 19h54
[] [envie esta mensagem] []



Caê-frapê

 

 

Quem tem pau, sabe:

 

há um meio termo, um estágio necessário, há um momento onde o amigão não está duro e nem mole, nem desanimado aninhado na ceroula, a descansar em cima do saco, e nem todo pimpão e pronto pra briga depois dos primeiros amassos com a vizinha, dentro do carro.

 

Antes de meu comparsa de bebedeiras nascer, isso aí não tinha nome.

 

Agora tem: chama pau frapê.

 

Ou seja: não está mole nem duro? Está frapê.

 

Para a dona de casa que não ligou o nome à pessoa, o frapê é uma espécie de milk-shake e tem aquela consistência malemolente, bem brasileira, nem pra lá e nem pra cá. Tem muito rapaz por aí que não tem cara e coragem para mostrar o dito cujo à namorada no estágio zero, murcho, triste, com medo do sol: antes de ir até o banho, pelo menos no começo da convivência, tem homem que passa pela moça a fingir que está mole.

 

Mas não está, está maior do que mole, menor do que duro: está frapê.

 

Lembrei disso ao me deparar com mais uma do meu, do seu, do nosso Caetano Veloso: ao tentar se explicar das papagaiadas da lei Rouanet, veio com umas boas – entre elas, o sessentão declamou ter saudades do “jato de urina forte e as ereções firmes”.

 

Ou seja: Caê está frapê.

 

Tem coisa mais aterrorizante que pensar o músico, com um pacote de camisinhas na mão, dar um vem cá minha nêga na moça e falar com seu baianês típico:

 

- Minha linda, hoje vai rolar sexo. Ou não. 

 

E até olhando para baixo, depois de uma hora de tentativas, cantarolando seu deprimente e famoso “e agora, que faço eu da vida sem você?”.

 

É de se pensar.

 

Ou não.



Escrito por Gabriel às 11h48
[] [envie esta mensagem] []



já?

 

Ah, mas já?

Gosto quando dizem essa frase. É o que diz o boa vida, o romântico, o apaixonado. E não o do tipo amador, que acredita que tudo vai durar pra sempre: quem fala o ah, mas já? tinha certeza, desde o início, que ia acabar dando merda.

Pode ser em um exame de colesterol aos vinte e seis anos. Pode ser quando sua senhora te liga, que é hora de pegar o filho na natação, bem no meio da terceira cerveja e quando o papo tava ficando bom. Pode ser quando seu time começa a vender os melhores jogadores para a Europa. Pode ser quando você tá quase conseguindo convencer a moça e, pronto, as amigas vão embora, ela tem que ir junto, anota meu telefone, e até outro dia.

Porque é bom aquele espaço em que, apesar de saber o que vai acontecer no final, so far so good, até agora, meu filho, ta tudo bem. Depois é depois, depois cuido disso. É quando você beija a moça gostosa da rua de cima, que tem pai delegado e marido traficante. É quando você descobre que está na torcida errada, mas a torcida errada ainda não se deu conta do fato. É quando você paga a viagem no crédito, e ainda falta para cair, e dá aquela impressão que foi de graça.

Ou é o que pensava o amigo oculto, a quem dedico esta crônica, que namorava duas lindas irmãs, sem que uma soubesse da outra, numa cafajestagem de filme de cinema do centro.

Uma acaba de descobrir, e as duas lhe enfiaram o pé.

Ah, mas já?

Já sim.

Esperava mais quantos anos nessa, desgraçado?



Escrito por Gabriel às 01h49
[] [envie esta mensagem] []



o mala do bar de baixo

 

Pode estar o frio que estiver, lá fora ou no peito, que o torcedor, o de verdade, acompanha seu time. Dias ruins, daqueles de acordar e dar com o dedinho do pé na quina da mesa, chuveiro gelado, carro que não liga, ônibus que não passa, chefe que dá bronca, seis horas que não chega, a menina que não liga, a cerveja que está quente, tudo passa, entrou seu time em campo é hora de futebol, e ponto final.

 

E é em dias desses que os desanimados se reúnem no bar aqui de baixo. Assistir ao jogo lá significa que não, não vamos beber no gargalo, não vamos entoar os hinos de torcida, não vamos bater palma, não vamos fazer nada a mais do que xingar esse meia que não toca a bola e gritar um vai, porra, de vez em quando.

 

No bar de baixo, o do futebol desanimado, tem outra mesa. Outra mesa que poderia muito bem ser ocupada por uma morena de vestido preto e batom vermelho, ar fresco de quem voltou ontem da Europa e ainda guarda um sotaque e um cachecol, e mostra as fotos, e acaba a noite com você e te dá café na cama no dia seguinte.

 

Mas não, claro que não.

 

Geralmente, é nessas horas que se apresenta o incrível e inconfundível, o grande e grudento, ele: o mala do bar.

 

Com o bar vazio, dá para ouvir tudo o que ele fala. Voz fanha, aguda, frouxa e em um tom que irrita qualquer filho de Deus, e um papo que é qualquer coisa de querer arrancar um braço para ter o que atacar no sujeito. Fala – ou berra – do churrasco que vai fazer, do vinagrete, da picanha, da turma da faculdade, da puta que o pariu – eu preferia ouvir o Arnaldo, quero ver o jogo, meu rapaz!

 

E como berra ao celular, o chato Liga para todo mundo e, como sempre, tem de se apresentar vinte vezes. Oi, sou eu. Eu, velho. Sou eu, cara. O Rodrigo, da faculdade. Isso. Então, você viu seu orkut? Te deixei um recado no orkut. É do churrasco que eu tô planejando. Vê se aparece, hein. Ok, meu. Ok, dessa vez vamos tomar todas, hein?

 

Como é triste atender um chato.

 

A segunda parte do show do mala é em relação ao jogo. Aí sim fica insuportável. Faz piadinhas com o Ronaldo – muito boa e original, mala velha, essa de compará-lo com a bola! -, com o Márcio Mixirica – se fosse laranja, tinha feito! -, com o juiz – ninguém toca a bola pro de preto? -, com o dono do bar – essa tevê a cabo só pode ser gato, né? -, com o jogo de novo – jogo duro, de assistir, hein, hein?

 

E tem teoria. Como chato guarda tanta teoria na cabeça, meu senhor?

 

Fala meia hora sobre como é melhor cobrar um pênalti, como é que se faz para escolher namorada que dá jogo, como fazer o “S do Senna”, o de Interlados,  dentro de uma Ferrari, como ser promovido, traz amor de volta, joga búzios e lê borra de café. Chato que é chato é especialista em tudo.

 

Conta histórias de quando jogava dominó no playground do prédio, evento de suma importância para a história da humanidade. Dá um gole ou outro, chato que é chato deixa a cerveja esquentar, e fala sobre o churrasco, de novo, meu Deus, lá vem o churrasco de novo, e é vinagrete, preço por cabeça, o quilo da picanha.

 

No bar aqui de baixo, só tem o corintiano do balcão e duas mesas.

 

Duas.

 

E na outra aparece o chato.



Escrito por Gabriel às 12h22
[] [envie esta mensagem] []



MEU bar

Não faz muito tempo não, um amigo de copo pedia atenção, falava inconformado de tudo, tudo bem perder a moça, tudo bem que ela namora, tudo bem que ela esteja em outra, mas aqui no bar não, aqui no MEU bar não, trazer aquele sorriso de eu já te esqueci até o MEU balcão não pode, não pode, não pode.

 

E é bem por aí, meu caro.

 

Quando a princesa resolve que não dá mais, e com a classe de sempre enfia o salto fino na buzanfa do rapaz, pé na bunda, fim de jogo, game over, tem mais é que seguir com a vida, ir atrás de outros barbados, e ele que se coloque de pé, e ele que tente ligar, mandar e-mail, pombo correio, o que for, não dá mais, não deu, paciência, é um para um lado e um para outro, e assim é que é.

 

Mais a alma masculina, simples como dormir no fim de um jogo ruim de futebol no domingo à tarde, pede respeito ao bar, e só isso.

 

Não estamos falando aqui de um bar qualquer, veja bem, meu velho, se resolveu beber em outras terras, outras esquinas, e lá encontrou o antigo amor bebericando com um outro rapaz, paciência, meu filho, enfia o rabo entre as pernas e bote-as para andar, camelar até o botequim mais longe possível da alegria da mulher amada, e vá chafurdar-se na cerveja do desamor sem que ela veja, longe, longe.

 

Mas o bar que é nosso, aquele que a gente pega cerveja direto na geladeira, aquele que NÓS apresentamos à dama, aquele não pode. Tudo bem que ela também tenha feito suas amizades por lá, tenha até a sua mesa, e pede até o de sempre, me vê o de sempre, de tanto que já bebeu e brindou saúde a um amor que já passou, mas no nosso bar não pode não.

 

Porque é lá que o lascado fala mal de sua ex-garota, que ela não tem coração, e chora os “e agora?”, faço o quê, e bebe, e bebe, e bebe, e sai carregado pelo psicólogo de plantão, ou um amigo velho, ou o garçom, ou o amigo da vez, te considero pra caralho, a gente se conheceu hoje mas eu te considero pra caralho, vem aqui, amigo, pega um copo que eu vou te contar sobre a mulher que levou a minha vida embora.

 

Beba, viva, alegre-se, minha filha, mas não, não aqui no nosso bar, aqui não.

 

É aquela coisa de etiqueta, darling.

 

Ser feliz aqui, no meu balcão, não.



Escrito por Gabriel às 12h25
[] [envie esta mensagem] []



a nêga dos que estão sem nêga

 

logo ela, bem ela, ganhou uma flor murcha do RH da empresa, uma rosa, e um bom dia e feliz dia das mulheres!, e teve de sorrir um amarelo-nicotina vazio de tudo, sorrir para estes homens estranhos que tem o calendário na ponta da língua, mania do inferno, é dia do livro, dia da flor, dia da puta que o pariu, dia da mulher, como assim, cadê a rosa de ontem, cadê a de amanhã?, dia das mulheres é uma piada, amigo-calendário, dia da mulher o quê, e que dia que não é?

-

diz o amigo bêbado, apoiado na barriga-pró de tantas noites azeitadas na Nêga Fulo, a cachaça, a nêga dos que estão sem nêga, diz o bêbado que o peito só dormirá sossegado quando criarem um dia da saudade, já dizia Raul, no meio de seus devaneios chapados, hoje é feriado, dia da saudade, e nesse dia todas as mulheres que sumiram da sua vida apareceriam, e apareceriam do jeito que te deixaram, se de cabelo curto, cortariam as madeixas só para te ver, e se te deixaram de quatro, amigo, de quatro brotariam na sua porta, e só assim o peito dormiria sossegado.

-

a economia de downtown, do lixo da cidade, da São Paulo escura, deve-se a uma só combinação: pau duro e miolo mole.

-

foi nesse dia, ano passado, ressaca das mais feias, das brabas, e foi você quem curou, engov da alma, telefonema certeiro, voz rouca de quem acabou de acordar, de quem está com tanta paz que quer passar um pouquinho para você também, de graça, pode pegar, e liga, como se adivinhasse, liguei para falar oi, e o oi ta falado, agora durma, durma, que amanhã é outro dia.

-

e desce mais uma, amizade, que o papo está bom. o fígado é que não sei não.



Escrito por Gabriel às 11h53
[] [envie esta mensagem] []



(nem) todo carnaval tem seu fim

guarda a fantasia, nêga, que a quarta-feira só chega para quem não conhece nossos becos, nossa noite, nossa serpentina engarrafada, nosso confete alucinógeno, nossa cachaça doce, nossa poesia, nosso violão.

 

guarda a fantasia, nêga, que eu vou te mostrar São Paulo, aquela que só aparece depois das seis, do blues-rock-samba-jazz, da madrugada mal dormida, do trabalho do dia seguinte, do nosso carnaval em preto e branco, da nossa avenida de tarde, a Paulista, do nosso carnaval de rua, a Augusta.

 

guarda a fantasia, nêga, que já foi o tempo de esperar o carnaval para afogar teus amores mal amados, teus maridos comedores de secretária, teus poetas brochas, teus noivos que fugiram do altar, é agora, carnaval é agora, carnaval é todo dia, dois dedinhos para cima, uísque e gelo e seja lá o que Deus quiser, é carnaval, é carnaval, não me leve a mal, hoje é carnaval.

 

e se não for a hora ainda de sair de casa, se ainda doer o peito, ainda assim, guarda a fantasia, nêga, guarda para amanhã.

 

e se veste de rainha, princesa, que nosso carnaval a gente pula no quarto.



Escrito por Gabriel às 14h31
[] [envie esta mensagem] []



do amor e do uísque

Uísque é bom, qualquer uísque é bom, até os nacionais te salvam de noites ruins, mas tem uísque que é bom de verdade.

 

Amor é bom, qualquer amor é bom, até os menores te salvam de noites ruins, mas tem amor que é bom de verdade.

 

Se perguntarem por aí, todos querem o melhor uísque do mundo, e todos querem o maior amor dessa vida.

 

Mas isso da boca pra fora.

 

Porque no uísque e no amor, quem quiser o melhor precisa ter coragem de pagar a conta.

 

E aí é que são elas.



Escrito por Gabriel às 15h51
[] [envie esta mensagem] []



De mulher ou da mulher?

Coisa de homem, mesmo, é ir atrás de mulher. E melhor ainda, é ir atrás da mulher.

Atrás da mulher são poucos que vão.

O sujeito, quando está atrás da, vira macho. O sujeito quando se dá conta que é ela, ela é a pequena, ela é o chuchu, o pudim, a azeitona da empada, o queijo do quarteirão com queijo, ela é para atender o telefone com oi, amor, ela é para apresentar para a avó, ela é para ter cinco lindos filhotinhos e ir morar na praia, é aí que o sujeito vira macho.

Se prepara como um lutador, o Tyson dos mimos, Hollyfield dos agrados, Maguila do te dou casa-comida-e-cinco-mil-no-cartão.

Calça suas luvas, aquece, coloca o calção novo que pediu para a mãe ou a irmã comprar e sobe no ringue.

Se esquiva das primeiras respostas atravessadas, foge dos amanhã-eu-não-posso, pula das lembranças que elas tem de outros machos e vai confiante para o segundo assalto.

Aguenta mais alguns socos, um no queixo, não importa, alguém falou que ia ser fácil?

E no terceiro round, homem que é macho, e sujeito quando vai atrás da mulher vira macho, não agüenta e joga a adversária nas cordas, e agarra, e beija, e se declara, e faz ela gostar.

E aí vai malemolente, certo que a luta vai ser dura, que a luta ta difícil, mas vai, pode dar certo, há chances, há chances, acho que vai dar, olha lá, vitória, vitória!

E aí você toma uma de direita no escutador de novela e vai pro chão.

E de lá não sai.

Conta um, dois, dez segundos, dois meses, conta o quanto quiser, seu juiz, que de lá o macho não sai.

Perder a mulher é levar um de direita na fuça.



Escrito por Gabriel às 00h54
[] [envie esta mensagem] []



cafajeste dos vinte e poucos

O cafajeste novo não fez nada de errado.

 

Pode ter fumado qualquer coisa estranha, pode ter passado da conta da cachaça e saído assim-assim do balcão, pode ter olhado para um decote ali e uma saia mais por lá, mas safadeza com outra mulher ele não fez.

 

O cafajeste novo não trai. E tem um medo dos diabos da mulher amada.

 

Outro dia se encantou com uma dessas moças-do-perfume, essas que ficam pelos corredores dos shoppings, top vermelho e camiseta branca, voz manhosa, quer experimentar?, e ela explica e diz o nome do danado, sempre em francês que é pra dar mais charme, e ela explica que não há cheiro melhor para homem carregar por aí, e espirra um pouco no papelzinho, e passa no pulso, um pouco no pescoço, gostou?, ah, é uma delícia, adorei, amanhã eu passo e compro, e tchau, tchau.

 

E só foi no fim do expediente que levantou de um pulo só, ai meu Deus, fodeu, fodeu, agora fodeu tudo, daqui a pouco vou ver a Dé, e daí?, e daí que estou com esse perfume, e daí?, e daí que ela não vai acreditar nunca que eu fui comprar perfume, e porque não?, porque ela sabe que eu não compro porra nenhuma, nem perfume, nem creme, ai meu Deus, fodeu, fodeu, agora fodeu tudo

 

E não deu outra: enfiou a mão no maço de cigarro vazio, tirou de lá os fumos perdidos e sapecou a essência de cigarro no braço, a fedentina da fumaça no pescoço, e foi a pé para o bar da esquina, que é para chegar suado e virar uma, e virar duas, e deixou o tempo passar, quinze minutos contados. Virou a terceira cachaça e foi ao encontro da amada.

 

Chegou atrasado, suado, boca de cachaça e cheiro de cigarro.

 

Levou a bronca que levava sempre.

 

E bronca de sempre não dói nada.



Escrito por Gabriel às 16h19
[] [envie esta mensagem] []



Maria gasta-água

o apelido da Maria, a da esquina, era Maria gasta-água.

era um tal de, dia sim e o outro também, e lá vinha a Maria de mangueira na mão, saia mais curta que salário no fim do mês e botas de plástico, vermelhas, uma elegância só. e não dá para reclamar do decote da blusa amarela, generoso, a se ver as sardinhas do colo lá da outra esquina.

e nem ligava para as brincadeiras da molecada da vizinhança, lá vai a Maria lavar a calçada de novo, aê Maria gasta-água!, vai gostar da calçada assim lá longe, Maria!, acho que vou almoçar aí no chão, porque a frente da sua casa deve estar mais limpa que os pratos lá de casa.

- larga a mangueira, Maria!

e a Maria se fazia de surda, e recolhia as folhas, e olhava para todo mundo - passava homem de carro e já dava um sorrisinho, passava motoboy e lá tava a Maria abaixando para pegar a vassoura, e até de ônibus tinha cara que gritava que podia brecar o busão, ô motorista, vou descer na esquina da gasta-água.

caía a tarde, e a Maria fechava a torneira e entrava em casa.

- porque onde já se viu mulher de família deixar a calçada suja?



Escrito por Gabriel às 01h49
[] [envie esta mensagem] []



embriaga-te

isso que eu tenho aqui não se vende em supermercado e nem no camelô, nem madame compra no free-shop ou na Daslu, nem empresário acha em puteiro chique ou no fundo do green label, nem os fodidos acham na cerveja-esmola ou no salgado que deixaram colocar na conta, nem os olha-como-sou-junkie da Augusta acham no pó de dez ou na bala de trinta, e nem os olha-como-sou-intelectual acham na orelha que leram do Nietzsche.

 

é paz.

 

e dá o maior barato.

Escrito por Gabriel às 11h15
[] [envie esta mensagem] []



blog prova do famoso bolovo do bar da Vesga e conta como foi

se você perguntar se é de hoje, provavelmente ouvirá uma resposta atravessada, de hoje não é, é de ovo. se você tentar pagar com uma nota de dez, provavelmente não vão ter troco, e aí não vão te servir. e comer o bolovo é igual ir para o quarto com a Glória Maria: se você olhar direito, não come. se você pensar no que está para fazer, não come. se você liga para o que vão dizer de você, não come.

 

ele é o maior dos bolinhos do balcão, ele é cascudo, ele é grande e mais recheado que a Sheila Carvalho - é quase do tamanho de uma bola de bocha, se é que você sabe o que é bocha. só de pegar com o guardanapo, o bichão já empapa o papel inteiro de óleo, e se você não tiver a sorte de achar outra folha, vai ter de limpar os dedos na calça.

 

tem medo de infarto? é nutricionista? segue religiosamente os conselhos do Drauzio Varella? não? então vai. tira um e cinqüenta do bolso, pede, não olha (não olha, porra!) e come.

 

na primeira mordida, ta lá o ovão cozido, que se derrete todo quando chega à boca. lábios brilhantes – é óleo pra cacete! – ainda tocam suavemente um pouco de carne moída, e a massa-misteriosa não chega a ser grudenta, e parece mesmo ser feita de farinha de trigo, batata, água e tempero, e Deus queira que só tenha isso mesmo. é até crocante, se o pensamento for positivo.

 

as vantagens do bolovo são enormes: você vai ver que é bom para memória, porque vai lembrar dele até na terça que vem. você vai ver que é bom para auto-estima, porque barbado que come o bolovo não foge de babaca criado a croissant. você vai entender um pouco da alma feminina, porque as cólicas virão em grande estilo.

 

e você vai aprender que o melhor mesmo é parar de beber.

 

ou você já viu alguém sóbrio pedindo bolovo?



Escrito por Gabriel às 18h05
[] [envie esta mensagem] []



direito de resposta

isso aqui não é cachaça.

 

tem cheiro de cachaça, desce igual cachaça, tá no copo pequeno, copo de cachaça, é doce feito cana, feito mel, feito cachaça, e até na conta, a dolorosa que uma hora sempre chega, até na conta escreveram que é cachaça, escreveram, mas não é.

 

é saudade.



Escrito por Gabriel às 12h49
[] [envie esta mensagem] []



esse jogo não vai ser um a um

se o amor é futebol-arte, daqueles bonitos de se ver, daqueles que tiram o leite e o pão da mesa por um lugar na arquibancada, se o amor é futebol-arte, você é um volante-brucutu, um dos retranqueiros de prancheta na mão e baba no canto da boca, sempre aos berros, sempre atrás de parar o jogo, é falta boba uma atrás da outra, você não consegue jogar, e não quer que ninguém jogue. seu orgulho de zagueiro-fazenda, pra quem a bola não faz falta, e pra quem é preferível distribuir bicos nas canelas alheias, no tornozelo de quem tenta um drible ou qualquer dessas jogadas mais bonitas, um anel, umas flores e três sambas tristes, seu orgulho de zagueiro-fazenda não ganha mais jogo, não comigo. meu quatro-quatro-dois vai atrás de quem o enfrente, de frente, porque essa sua retranca não vale o pé por cima da bola, o dois-pra-lá-dois-pra-cá, e cá pra nós, não dá vontade de sair daqui nem para cobrar um escanteio. seu zero-a-zero pede, implora, chora fingido pra que eu ataque, ataque em uma dessas subidas com o coração na boca e mais nada na cabeça, sem eira nem beira, dois laterais à frente e dá-lhe bola na área pra ver o que dá, e o que dá a gente sabe, não dá em nada. seu time de um lado, o meu do outro, e se você não dá bola, eu deixo a bola no meio, sem pontapé inicial e com quantos minutos de silêncio você puder engolir.  



Escrito por Gabriel às 16h35
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


Histórico