o mala do bar de baixo

 

Pode estar o frio que estiver, lá fora ou no peito, que o torcedor, o de verdade, acompanha seu time. Dias ruins, daqueles de acordar e dar com o dedinho do pé na quina da mesa, chuveiro gelado, carro que não liga, ônibus que não passa, chefe que dá bronca, seis horas que não chega, a menina que não liga, a cerveja que está quente, tudo passa, entrou seu time em campo é hora de futebol, e ponto final.

 

E é em dias desses que os desanimados se reúnem no bar aqui de baixo. Assistir ao jogo lá significa que não, não vamos beber no gargalo, não vamos entoar os hinos de torcida, não vamos bater palma, não vamos fazer nada a mais do que xingar esse meia que não toca a bola e gritar um vai, porra, de vez em quando.

 

No bar de baixo, o do futebol desanimado, tem outra mesa. Outra mesa que poderia muito bem ser ocupada por uma morena de vestido preto e batom vermelho, ar fresco de quem voltou ontem da Europa e ainda guarda um sotaque e um cachecol, e mostra as fotos, e acaba a noite com você e te dá café na cama no dia seguinte.

 

Mas não, claro que não.

 

Geralmente, é nessas horas que se apresenta o incrível e inconfundível, o grande e grudento, ele: o mala do bar.

 

Com o bar vazio, dá para ouvir tudo o que ele fala. Voz fanha, aguda, frouxa e em um tom que irrita qualquer filho de Deus, e um papo que é qualquer coisa de querer arrancar um braço para ter o que atacar no sujeito. Fala – ou berra – do churrasco que vai fazer, do vinagrete, da picanha, da turma da faculdade, da puta que o pariu – eu preferia ouvir o Arnaldo, quero ver o jogo, meu rapaz!

 

E como berra ao celular, o chato Liga para todo mundo e, como sempre, tem de se apresentar vinte vezes. Oi, sou eu. Eu, velho. Sou eu, cara. O Rodrigo, da faculdade. Isso. Então, você viu seu orkut? Te deixei um recado no orkut. É do churrasco que eu tô planejando. Vê se aparece, hein. Ok, meu. Ok, dessa vez vamos tomar todas, hein?

 

Como é triste atender um chato.

 

A segunda parte do show do mala é em relação ao jogo. Aí sim fica insuportável. Faz piadinhas com o Ronaldo – muito boa e original, mala velha, essa de compará-lo com a bola! -, com o Márcio Mixirica – se fosse laranja, tinha feito! -, com o juiz – ninguém toca a bola pro de preto? -, com o dono do bar – essa tevê a cabo só pode ser gato, né? -, com o jogo de novo – jogo duro, de assistir, hein, hein?

 

E tem teoria. Como chato guarda tanta teoria na cabeça, meu senhor?

 

Fala meia hora sobre como é melhor cobrar um pênalti, como é que se faz para escolher namorada que dá jogo, como fazer o “S do Senna”, o de Interlados,  dentro de uma Ferrari, como ser promovido, traz amor de volta, joga búzios e lê borra de café. Chato que é chato é especialista em tudo.

 

Conta histórias de quando jogava dominó no playground do prédio, evento de suma importância para a história da humanidade. Dá um gole ou outro, chato que é chato deixa a cerveja esquentar, e fala sobre o churrasco, de novo, meu Deus, lá vem o churrasco de novo, e é vinagrete, preço por cabeça, o quilo da picanha.

 

No bar aqui de baixo, só tem o corintiano do balcão e duas mesas.

 

Duas.

 

E na outra aparece o chato.



Escrito por Gabriel às 12h22
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MEU bar

Não faz muito tempo não, um amigo de copo pedia atenção, falava inconformado de tudo, tudo bem perder a moça, tudo bem que ela namora, tudo bem que ela esteja em outra, mas aqui no bar não, aqui no MEU bar não, trazer aquele sorriso de eu já te esqueci até o MEU balcão não pode, não pode, não pode.

 

E é bem por aí, meu caro.

 

Quando a princesa resolve que não dá mais, e com a classe de sempre enfia o salto fino na buzanfa do rapaz, pé na bunda, fim de jogo, game over, tem mais é que seguir com a vida, ir atrás de outros barbados, e ele que se coloque de pé, e ele que tente ligar, mandar e-mail, pombo correio, o que for, não dá mais, não deu, paciência, é um para um lado e um para outro, e assim é que é.

 

Mais a alma masculina, simples como dormir no fim de um jogo ruim de futebol no domingo à tarde, pede respeito ao bar, e só isso.

 

Não estamos falando aqui de um bar qualquer, veja bem, meu velho, se resolveu beber em outras terras, outras esquinas, e lá encontrou o antigo amor bebericando com um outro rapaz, paciência, meu filho, enfia o rabo entre as pernas e bote-as para andar, camelar até o botequim mais longe possível da alegria da mulher amada, e vá chafurdar-se na cerveja do desamor sem que ela veja, longe, longe.

 

Mas o bar que é nosso, aquele que a gente pega cerveja direto na geladeira, aquele que NÓS apresentamos à dama, aquele não pode. Tudo bem que ela também tenha feito suas amizades por lá, tenha até a sua mesa, e pede até o de sempre, me vê o de sempre, de tanto que já bebeu e brindou saúde a um amor que já passou, mas no nosso bar não pode não.

 

Porque é lá que o lascado fala mal de sua ex-garota, que ela não tem coração, e chora os “e agora?”, faço o quê, e bebe, e bebe, e bebe, e sai carregado pelo psicólogo de plantão, ou um amigo velho, ou o garçom, ou o amigo da vez, te considero pra caralho, a gente se conheceu hoje mas eu te considero pra caralho, vem aqui, amigo, pega um copo que eu vou te contar sobre a mulher que levou a minha vida embora.

 

Beba, viva, alegre-se, minha filha, mas não, não aqui no nosso bar, aqui não.

 

É aquela coisa de etiqueta, darling.

 

Ser feliz aqui, no meu balcão, não.



Escrito por Gabriel às 12h25
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cafajeste dos vinte e poucos

O cafajeste novo não fez nada de errado.

 

Pode ter fumado qualquer coisa estranha, pode ter passado da conta da cachaça e saído assim-assim do balcão, pode ter olhado para um decote ali e uma saia mais por lá, mas safadeza com outra mulher ele não fez.

 

O cafajeste novo não trai. E tem um medo dos diabos da mulher amada.

 

Outro dia se encantou com uma dessas moças-do-perfume, essas que ficam pelos corredores dos shoppings, top vermelho e camiseta branca, voz manhosa, quer experimentar?, e ela explica e diz o nome do danado, sempre em francês que é pra dar mais charme, e ela explica que não há cheiro melhor para homem carregar por aí, e espirra um pouco no papelzinho, e passa no pulso, um pouco no pescoço, gostou?, ah, é uma delícia, adorei, amanhã eu passo e compro, e tchau, tchau.

 

E só foi no fim do expediente que levantou de um pulo só, ai meu Deus, fodeu, fodeu, agora fodeu tudo, daqui a pouco vou ver a Dé, e daí?, e daí que estou com esse perfume, e daí?, e daí que ela não vai acreditar nunca que eu fui comprar perfume, e porque não?, porque ela sabe que eu não compro porra nenhuma, nem perfume, nem creme, ai meu Deus, fodeu, fodeu, agora fodeu tudo

 

E não deu outra: enfiou a mão no maço de cigarro vazio, tirou de lá os fumos perdidos e sapecou a essência de cigarro no braço, a fedentina da fumaça no pescoço, e foi a pé para o bar da esquina, que é para chegar suado e virar uma, e virar duas, e deixou o tempo passar, quinze minutos contados. Virou a terceira cachaça e foi ao encontro da amada.

 

Chegou atrasado, suado, boca de cachaça e cheiro de cigarro.

 

Levou a bronca que levava sempre.

 

E bronca de sempre não dói nada.



Escrito por Gabriel às 16h19
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Maria gasta-água

o apelido da Maria, a da esquina, era Maria gasta-água.

era um tal de, dia sim e o outro também, e lá vinha a Maria de mangueira na mão, saia mais curta que salário no fim do mês e botas de plástico, vermelhas, uma elegância só. e não dá para reclamar do decote da blusa amarela, generoso, a se ver as sardinhas do colo lá da outra esquina.

e nem ligava para as brincadeiras da molecada da vizinhança, lá vai a Maria lavar a calçada de novo, aê Maria gasta-água!, vai gostar da calçada assim lá longe, Maria!, acho que vou almoçar aí no chão, porque a frente da sua casa deve estar mais limpa que os pratos lá de casa.

- larga a mangueira, Maria!

e a Maria se fazia de surda, e recolhia as folhas, e olhava para todo mundo - passava homem de carro e já dava um sorrisinho, passava motoboy e lá tava a Maria abaixando para pegar a vassoura, e até de ônibus tinha cara que gritava que podia brecar o busão, ô motorista, vou descer na esquina da gasta-água.

caía a tarde, e a Maria fechava a torneira e entrava em casa.

- porque onde já se viu mulher de família deixar a calçada suja?



Escrito por Gabriel às 01h49
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blog prova do famoso bolovo do bar da Vesga e conta como foi

se você perguntar se é de hoje, provavelmente ouvirá uma resposta atravessada, de hoje não é, é de ovo. se você tentar pagar com uma nota de dez, provavelmente não vão ter troco, e aí não vão te servir. e comer o bolovo é igual ir para o quarto com a Glória Maria: se você olhar direito, não come. se você pensar no que está para fazer, não come. se você liga para o que vão dizer de você, não come.

 

ele é o maior dos bolinhos do balcão, ele é cascudo, ele é grande e mais recheado que a Sheila Carvalho - é quase do tamanho de uma bola de bocha, se é que você sabe o que é bocha. só de pegar com o guardanapo, o bichão já empapa o papel inteiro de óleo, e se você não tiver a sorte de achar outra folha, vai ter de limpar os dedos na calça.

 

tem medo de infarto? é nutricionista? segue religiosamente os conselhos do Drauzio Varella? não? então vai. tira um e cinqüenta do bolso, pede, não olha (não olha, porra!) e come.

 

na primeira mordida, ta lá o ovão cozido, que se derrete todo quando chega à boca. lábios brilhantes – é óleo pra cacete! – ainda tocam suavemente um pouco de carne moída, e a massa-misteriosa não chega a ser grudenta, e parece mesmo ser feita de farinha de trigo, batata, água e tempero, e Deus queira que só tenha isso mesmo. é até crocante, se o pensamento for positivo.

 

as vantagens do bolovo são enormes: você vai ver que é bom para memória, porque vai lembrar dele até na terça que vem. você vai ver que é bom para auto-estima, porque barbado que come o bolovo não foge de babaca criado a croissant. você vai entender um pouco da alma feminina, porque as cólicas virão em grande estilo.

 

e você vai aprender que o melhor mesmo é parar de beber.

 

ou você já viu alguém sóbrio pedindo bolovo?



Escrito por Gabriel às 18h05
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direito de resposta

isso aqui não é cachaça.

 

tem cheiro de cachaça, desce igual cachaça, tá no copo pequeno, copo de cachaça, é doce feito cana, feito mel, feito cachaça, e até na conta, a dolorosa que uma hora sempre chega, até na conta escreveram que é cachaça, escreveram, mas não é.

 

é saudade.



Escrito por Gabriel às 12h49
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esse jogo não vai ser um a um

se o amor é futebol-arte, daqueles bonitos de se ver, daqueles que tiram o leite e o pão da mesa por um lugar na arquibancada, se o amor é futebol-arte, você é um volante-brucutu, um dos retranqueiros de prancheta na mão e baba no canto da boca, sempre aos berros, sempre atrás de parar o jogo, é falta boba uma atrás da outra, você não consegue jogar, e não quer que ninguém jogue. seu orgulho de zagueiro-fazenda, pra quem a bola não faz falta, e pra quem é preferível distribuir bicos nas canelas alheias, no tornozelo de quem tenta um drible ou qualquer dessas jogadas mais bonitas, um anel, umas flores e três sambas tristes, seu orgulho de zagueiro-fazenda não ganha mais jogo, não comigo. meu quatro-quatro-dois vai atrás de quem o enfrente, de frente, porque essa sua retranca não vale o pé por cima da bola, o dois-pra-lá-dois-pra-cá, e cá pra nós, não dá vontade de sair daqui nem para cobrar um escanteio. seu zero-a-zero pede, implora, chora fingido pra que eu ataque, ataque em uma dessas subidas com o coração na boca e mais nada na cabeça, sem eira nem beira, dois laterais à frente e dá-lhe bola na área pra ver o que dá, e o que dá a gente sabe, não dá em nada. seu time de um lado, o meu do outro, e se você não dá bola, eu deixo a bola no meio, sem pontapé inicial e com quantos minutos de silêncio você puder engolir.  



Escrito por Gabriel às 16h35
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Gatos

Qual é a desses gatos? E o pior, que dá para entender menos ainda: qual é a dos donos desses gatos? Vivem querendo me convencer que eles são tão legais, e tralálá, independentes, e papapá, e dão muito menos trabalho que os cachorros. Isso lá é argumento?

 

E os nomes, então? Nina, Frufru, Gabriela, Afonso. E tem mais: Tiffany, Kin, Mimi e sei lá mais o quê. Eu não gosto dos nomes dos gatos.

 

Gatos são arrogantes. E quer saber do que mais? Eles são arrogantes e não tem banda, não escrevem livros e nem ganham o campeonato brasileiro pelo Corinthians para se sentirem tão importantes.

 

São gatos, e só. E ficam com aquela cara de gatos, olhando para os outros gatos. Apenas são gatos e acham que isso é suficiente.

 

Não é.



Escrito por Gabriel às 15h37
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Você merece um soco no olho

Eu queria ser brega como aqueles caras que você reclama tanto, aí eu ia até aí e me declararava com um daqueles carros de tele mensagem. Você ia odiar. Eu queria não conhecer nada das bandas que você mais gosta. Você ia odiar. Eu queria dizer que seu sorriso não é tão bonito assim, que seu cabelo é arrumado demais e que suas roupas são exageradas. Você ia odiar.

 

Eu queria te dar um murro no olho.

 

Eu queria te levar para o hospital.

 

Eu queria ser brega como aqueles caras que você reclama tanto, aí eu ia até aí e jogava três milhões de flores brancas no seu quintal com um helicóptero daqueles de um barulho dos infernos. Você ia odiar. Eu queria não conhecer nada dos filmes que você mais gosta. Você ia odiar. Eu queria dizer que seu sorriso não é tão bonito assim, que seu cabelo é arrumado demais e que suas roupas são exageradas.

 

Mas é que você é linda.

 

E não ia dar para pensar tanto em você se o seu olho fosse torto.

 

Eu queria te dar um murro no olho.



Escrito por Gabriel às 15h03
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Histórias que ninguém conta

Ela tinha vomitado da sacada de uma casa noturna. A gororoba se espalhou pelos ombros de quem estava na porta, à espera para entrar. Como o pessoal não deve ter ficado nada contente, temi pelo resto da história. Perguntei, preocupado.

 

- E como você voltou para casa?

 

E ela, com a voz mais delicada do mundo:

 

- De metrô.

 

Ele parou a redação para contar mais uma história. Dizia que tinha um amigo de cabelo até os pés, e que um dia o pai do amigo prometeu uma motocicleta novinha se ele raspasse a cabeleira. Aí, ele cortou. E todo mundo perguntou, quase em coro:

 

- E aí, o que aconteceu?

 

E ele, atônito:

 

- Ganhou a moto, oras.



Escrito por Gabriel às 11h15
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O papa e a casca de banana

O papa. Sabe, o papa? Então. Outro dia li que, apesar de estar com um pé na cova e outro na casca de banana, o simpático velhinho não desanima. Vive distribuindo sorrisos, abençoando seus seguidores com sinais à distância, alegrando, ainda e apesar de tudo, a vida de todos que crêem.

E aí eu pergunto: e tinha lá como ser diferente? Explico. O simpático lá crê em Deus. Se ele crê em Deus, acredita que, depois de superar essa fase de um pé na cova e outro no sabonete, vai parar em um lugar lindo e belo, onde jorra cerveja pelas torneiras da cozinha, onde as mulheres andam na rua no maior topless e onde o seu time de futebol nunca perde.

A não ser, claro, que ele tenha cometido algum pecado. Mas eu acho que não é o caso. Veja só. O simpático lá tomou um tiro. Um tiro. Saibam que um tiro não é um beliscão que você toma da namorada enquanto olha nádegas alheias. Não, não senhor. Dói mais, machuca mesmo. Ele tomou um tiro e perdoou a quem atirou. Juro.

E eu fico pensando. E a gente? E a gente, hein? A gente que já não sabe se acredita em Deus, a gente que é tudo menos santo, a gente que às vezes fica puto com alguém só porque levou um pisão na unha encravada. E aí? Será que vamos estar todos aos sorrisos e dando tchauzinho pela janela do hospital quando estivermos com um pé na cova e outro em um pingüim molhado?



Escrito por Gabriel às 08h07
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Não é sempre que um artigo resolve relacionar o amor com o elevador de segunda-à-sexta

Ah, o elevador. Palco de tantas conversas sobre o clima, tá frio hoje, tá quente hoje, olha só que tempo louco. Ah, o elevador. Não aquele do prédio, aquele do lar aconchegante, esse elevador é aquele outro, aquele de empresa. Para quem trabalha acima do décimo andar, receber a notícia de que a geringonça está quebrada é um martírio. Acostumados com a mordomia do aperta-o-andar-e-logo-chega, o sofrimento é doído, degrau por degrau, andar por andar.

E aí eu penso no amor. Que história é essa de que é melhor sofrer por ele do que nunca ter amado ninguém? Explico pelos elevadores. Se não existissem elevadores, estaríamos acostumados a subir pé por pé, estaríamos mais leves, mais soltos. E não cansados, de alma e corpo doídos, cabeça cheia, cheia de vontade de ir embora logo e enfiar a cara no travesseiro. Saibam, amigos. Há quem prefira nunca ter amado, há quem deseje esquecer que viveu feliz, feliz no tempo em que os elevadores funcionavam.  

Escrito por Gabriel às 10h12
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Quando se pára de trabalhar para pensar nos que não trabalham.

Em frente ao computador e atrás de uma pilha de relatórios intermináveis. Mas fico pensando em padres. É, nos padres. E fico pensando em xadrez. Sabe, o jogo? Disse o Millôr, o Fernandes, disse ele uma vez que jogar xadrez melhora a capacidade intelectual e a concentração. Essa inteligência toda serve para uma só coisa, claro, para se jogar mais xadrez. E eu penso em alguns padres no mesmo jeitão que o Millôr matuta sobre os profissionais do cheque-mate.  Explico. Os simpáticos velhinhos sabem tudo sobre a palavra divina, sobre as parábolas, sobre aqueles deliciosos verbos do tipo levanta-te e anda-te, curai-te e alimenta-te. Mas são poucos os que levantam seus calejados joelhos para lavar uma calçada, distribuir comida para os que precisam comer, banho, casa, roupa-lavada, um lençol branco e um vaso de flores amarelas para a mesa de centro da sala. São Paulo, o santo, não clube do Morumbi, não foi São Paulo, o santo, que disse que um sino não é nada, o sino é inútil se não sair fazendo barulho por aí?
E chega meu chefe, badalando por todos os lados da minha sala, cobrando o relatório atrasado no melhor estilo escreveis ou não pagarei-te, indolente.



Escrito por Gabriel às 09h13
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