o mala do bar de baixo

Pode estar o frio que estiver, lá fora ou no peito, que o torcedor, o de verdade, acompanha seu time. Dias ruins, daqueles de acordar e dar com o dedinho do pé na quina da mesa, chuveiro gelado, carro que não liga, ônibus que não passa, chefe que dá bronca, seis horas que não chega, a menina que não liga, a cerveja que está quente, tudo passa, entrou seu time em campo é hora de futebol, e ponto final. E é em dias desses que os desanimados se reúnem no bar aqui de baixo. Assistir ao jogo lá significa que não, não vamos beber no gargalo, não vamos entoar os hinos de torcida, não vamos bater palma, não vamos fazer nada a mais do que xingar esse meia que não toca a bola e gritar um vai, porra, de vez em quando. No bar de baixo, o do futebol desanimado, tem outra mesa. Outra mesa que poderia muito bem ser ocupada por uma morena de vestido preto e batom vermelho, ar fresco de quem voltou ontem da Europa e ainda guarda um sotaque e um cachecol, e mostra as fotos, e acaba a noite com você e te dá café na cama no dia seguinte. Mas não, claro que não. Geralmente, é nessas horas que se apresenta o incrível e inconfundível, o grande e grudento, ele: o mala do bar. Com o bar vazio, dá para ouvir tudo o que ele fala. Voz fanha, aguda, frouxa e em um tom que irrita qualquer filho de Deus, e um papo que é qualquer coisa de querer arrancar um braço para ter o que atacar no sujeito. Fala – ou berra – do churrasco que vai fazer, do vinagrete, da picanha, da turma da faculdade, da puta que o pariu – eu preferia ouvir o Arnaldo, quero ver o jogo, meu rapaz! E como berra ao celular, o chato Liga para todo mundo e, como sempre, tem de se apresentar vinte vezes. Oi, sou eu. Eu, velho. Sou eu, cara. O Rodrigo, da faculdade. Isso. Então, você viu seu orkut? Te deixei um recado no orkut. É do churrasco que eu tô planejando. Vê se aparece, hein. Ok, meu. Ok, dessa vez vamos tomar todas, hein? Como é triste atender um chato. A segunda parte do show do mala é em relação ao jogo. Aí sim fica insuportável. Faz piadinhas com o Ronaldo – muito boa e original, mala velha, essa de compará-lo com a bola! -, com o Márcio Mixirica – se fosse laranja, tinha feito! -, com o juiz – ninguém toca a bola pro de preto? -, com o dono do bar – essa tevê a cabo só pode ser gato, né? -, com o jogo de novo – jogo duro, de assistir, hein, hein? E tem teoria. Como chato guarda tanta teoria na cabeça, meu senhor? Fala meia hora sobre como é melhor cobrar um pênalti, como é que se faz para escolher namorada que dá jogo, como fazer o “S do Senna”, o de Interlados, dentro de uma Ferrari, como ser promovido, traz amor de volta, joga búzios e lê borra de café. Chato que é chato é especialista em tudo. Conta histórias de quando jogava dominó no playground do prédio, evento de suma importância para a história da humanidade. Dá um gole ou outro, chato que é chato deixa a cerveja esquentar, e fala sobre o churrasco, de novo, meu Deus, lá vem o churrasco de novo, e é vinagrete, preço por cabeça, o quilo da picanha. No bar aqui de baixo, só tem o corintiano do balcão e duas mesas. Duas. E na outra aparece o chato.
Escrito por Gabriel às 12h22
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blog prova da rabada do bar da Vesga e conta como foi
 A primeira providência é não usar dos trocadilhos. Se você é um daqueles que precisam, não se sabe o motivo, mas precisam perguntar se é pavê ou pracomê quando a sobremesa é colocada à mesa, dificilmente vai resistir às piadas com a rabada. O blog, entretanto, se recusa. A segunda, mais importante, é não confundir rabada com rabanada – rabanada é aquele lance com pão, leite, ovo e açúcar que a sua avó faz no Natal. E a rabada, meu filho, não é doce não. Ganhou esse nome porque é o rabo do boi – ou da vaca, já que, até segundo alguns atacantes famosos e outros traçadores de travestis, rabo é rabo e fim de papo. Os ossos, aqueles onde a carne fica, são as vértebras. Geralmente é servido com polenta ou mandioca, no domingo, lá pelas quatro da tarde com a família já bem bêbada. Mas não no bar da Vesga. No bar da Vesga, o prato vem no marmitex. Acompanha sete quilos de arroz, doze de feijão e duas fatias de tomate com algumas cebolas mais perdidas que filho de puta em dia dos pais – acreditam os envolvidos no processo de preparação que o prato acompanha salada, mas salada é outra coisa. E no meio da gororoba, cinco pedaços suculentos da rabada, vermelhas, molhadas, macias. Uma coisa é fato: comer rabada com garfo e faca é coisa para magrelos criados em condomínio. Outra: esqueça os guardanapos de papel – umedeça um pano de prato com o cuidado de perceber que não está sendo visto pela pobre alma que lavará esse pano de prato após a refeição-bomba. E outra: comer rabada com a mão perto das mulheres é a certeza, absoluta, que a rabada vai ser a única coisa que você vai comer pelos próximos quinze anos. Espere ficar sozinho, espere que todo mundo almoce, e meta a mão, que é assim o boi gosta. Ou a vaca. No caso, deu para roer os ossos e, principalmente, aquela gordura que fica em cima dos pedaços. Tudo regado a um azeite de primeira, que de segunda já basta o bar da Vesga. Chupe a gordura, lamba os dedos. E aproveite a sensação de masculinidade. - Sabe o rabo da Vesga? Comi.
Escrito por Gabriel às 14h59
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MEU bar

Não faz muito tempo não, um amigo de copo pedia atenção, falava inconformado de tudo, tudo bem perder a moça, tudo bem que ela namora, tudo bem que ela esteja em outra, mas aqui no bar não, aqui no MEU bar não, trazer aquele sorriso de eu já te esqueci até o MEU balcão não pode, não pode, não pode. E é bem por aí, meu caro. Quando a princesa resolve que não dá mais, e com a classe de sempre enfia o salto fino na buzanfa do rapaz, pé na bunda, fim de jogo, game over, tem mais é que seguir com a vida, ir atrás de outros barbados, e ele que se coloque de pé, e ele que tente ligar, mandar e-mail, pombo correio, o que for, não dá mais, não deu, paciência, é um para um lado e um para outro, e assim é que é. Mais a alma masculina, simples como dormir no fim de um jogo ruim de futebol no domingo à tarde, pede respeito ao bar, e só isso. Não estamos falando aqui de um bar qualquer, veja bem, meu velho, se resolveu beber em outras terras, outras esquinas, e lá encontrou o antigo amor bebericando com um outro rapaz, paciência, meu filho, enfia o rabo entre as pernas e bote-as para andar, camelar até o botequim mais longe possível da alegria da mulher amada, e vá chafurdar-se na cerveja do desamor sem que ela veja, longe, longe. Mas o bar que é nosso, aquele que a gente pega cerveja direto na geladeira, aquele que NÓS apresentamos à dama, aquele não pode. Tudo bem que ela também tenha feito suas amizades por lá, tenha até a sua mesa, e pede até o de sempre, me vê o de sempre, de tanto que já bebeu e brindou saúde a um amor que já passou, mas no nosso bar não pode não. Porque é lá que o lascado fala mal de sua ex-garota, que ela não tem coração, e chora os “e agora?”, faço o quê, e bebe, e bebe, e bebe, e sai carregado pelo psicólogo de plantão, ou um amigo velho, ou o garçom, ou o amigo da vez, te considero pra caralho, a gente se conheceu hoje mas eu te considero pra caralho, vem aqui, amigo, pega um copo que eu vou te contar sobre a mulher que levou a minha vida embora. Beba, viva, alegre-se, minha filha, mas não, não aqui no nosso bar, aqui não. É aquela coisa de etiqueta, darling. Ser feliz aqui, no meu balcão, não.
Escrito por Gabriel às 12h25
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a nêga dos que estão sem nêga

logo ela, bem ela, ganhou uma flor murcha do RH da empresa, uma rosa, e um bom dia e feliz dia das mulheres!, e teve de sorrir um amarelo-nicotina vazio de tudo, sorrir para estes homens estranhos que tem o calendário na ponta da língua, mania do inferno, é dia do livro, dia da flor, dia da puta que o pariu, dia da mulher, como assim, cadê a rosa de ontem, cadê a de amanhã?, dia das mulheres é uma piada, amigo-calendário, dia da mulher o quê, e que dia que não é? - diz o amigo bêbado, apoiado na barriga-pró de tantas noites azeitadas na Nêga Fulo, a cachaça, a nêga dos que estão sem nêga, diz o bêbado que o peito só dormirá sossegado quando criarem um dia da saudade, já dizia Raul, no meio de seus devaneios chapados, hoje é feriado, dia da saudade, e nesse dia todas as mulheres que sumiram da sua vida apareceriam, e apareceriam do jeito que te deixaram, se de cabelo curto, cortariam as madeixas só para te ver, e se te deixaram de quatro, amigo, de quatro brotariam na sua porta, e só assim o peito dormiria sossegado. - a economia de downtown, do lixo da cidade, da São Paulo escura, deve-se a uma só combinação: pau duro e miolo mole. - foi nesse dia, ano passado, ressaca das mais feias, das brabas, e foi você quem curou, engov da alma, telefonema certeiro, voz rouca de quem acabou de acordar, de quem está com tanta paz que quer passar um pouquinho para você também, de graça, pode pegar, e liga, como se adivinhasse, liguei para falar oi, e o oi ta falado, agora durma, durma, que amanhã é outro dia. - e desce mais uma, amizade, que o papo está bom. o fígado é que não sei não.
Escrito por Gabriel às 11h53
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De quem compra uma rosa só
A dona Nina é dona da floricultura da rua de trás, lugar pequeno e bem quente, facilmente encontrado bem ao lado de outro lugar cheio de flores, dessas lojas que entregam amores-delivery a todos aqueles que decidem não ter tempo de pensar no grande amor, e enquanto a morena fica em segundo plano, trabalham, bebem, mimam as amantes todas. E aí, acordam já no aniversário de namoro ou de casamento e ligam para a loja do lado, encomendam um milhão de rosas já com bilhetes prontos, e pronto, a moça fica feliz e lá vai o sujeito de novo, de volta ao trabalho, às raparigas outras. Na floricultura da dona Nina as coisas são diferentes. Na entrada, arranjos delicados de dúzias de rosas, amarelas e animadas, vermelhas e fortes, e tantas outras flores que qualquer barbado de coração mole fica perdido, dou o quê para ela, e quantas, e em qual arranjo? À frente do balcão, dois papagaios bem dos mal educados recebem o futuro comprador, sempre com piadinhas bem das mal criadas de quem já viu tantas caras-pálidas atrás da reconciliação, da lembrança, gente suada e sem rumo, gente com dor no peito que tem a dona Nina como última esperança. E não são poucas as vezes que os barbados apaixonados saem de lá com uma flor só. O arranjo solitário, o bloco do eu sozinho das rosas, sai por pouco mais de um real, e a dona Nina não tem paciência em cobrar aquilo no cartão. Passa depois, passa depois e me paga. Passa depois e me diz se deu certo. Porque a dona Nina, senhora gorda de fala lenta, de óculos pesados e braços de abraço gostoso, sabe que esse negócio de uma flor dificilmente dá jogo. Conta ela que, da última vez, o rapaz só lembrou de voltar com o dinheiro uma semana e meia depois. Cheirava álcool, o pobre, e tinha os olhos pesados de quem chorou tudo o que tinha para chorar, e tentava de todo jeito colocar a nota amassada de dois reais na mão da dona Nina. E enquanto cambaleava, em mais um desses malabarismos que os homens fazem para pagar suas dívidas, ainda fez qualquer desabafo desses perdidos no ar, não deu certo, dona Nina, ela não vem mais, não adiantou nada. E em caso que o amor deu errado a dona Nina não quer nem cobrar. Isso porque ela sabe que uma só flor é o último recurso. Porque um amor de uma rosa só já foi aquele de dúzias, deixadas de surpresa na porta da casa dela, poesia brega no envelope, pacote completo. Agora, a flor solitária é sempre para reconciliação, quase um sei que te perdi, mas tenha dó de mim, me leve para casa, me faça uma massagem e dois filhos serelepes. Mas a dona Nina sabe das coisas. Quando chega a hora da uma rosa só, dificilmente a morena volta para casa, dá um beijo de olha quem voltou e vai tratar de cuidar do amor. Uma rosa só é muito difícil, diz a dona Nina, e não é porque quero vender mais não, é porque não dá, mesmo. Quando um homem compra uma rosa só, é porque sabe que perdeu a mulher. E o olhar piedoso da senhora bondosa ao insistir em não receber dois reais de mais um que caiu na desgraça de reconquistar uma mulher vale mais do que parece. É um jeito de eu te entendo, e não de eu te avisei. É um conselho de vai beber mais um pouco, e não de tome jeito e vá pra casa. É um gesto de eu já passei por isso e só o tempo cura, só o tempo, vá tomar seu porre, vá curar esse peito. E diz, sábia que é: - E só me apareça aqui quando inventar um amor novo.
Escrito por Gabriel às 13h37
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(nem) todo carnaval tem seu fim
guarda a fantasia, nêga, que a quarta-feira só chega para quem não conhece nossos becos, nossa noite, nossa serpentina engarrafada, nosso confete alucinógeno, nossa cachaça doce, nossa poesia, nosso violão. guarda a fantasia, nêga, que eu vou te mostrar São Paulo, aquela que só aparece depois das seis, do blues-rock-samba-jazz, da madrugada mal dormida, do trabalho do dia seguinte, do nosso carnaval em preto e branco, da nossa avenida de tarde, a Paulista, do nosso carnaval de rua, a Augusta. guarda a fantasia, nêga, que já foi o tempo de esperar o carnaval para afogar teus amores mal amados, teus maridos comedores de secretária, teus poetas brochas, teus noivos que fugiram do altar, é agora, carnaval é agora, carnaval é todo dia, dois dedinhos para cima, uísque e gelo e seja lá o que Deus quiser, é carnaval, é carnaval, não me leve a mal, hoje é carnaval. e se não for a hora ainda de sair de casa, se ainda doer o peito, ainda assim, guarda a fantasia, nêga, guarda para amanhã. e se veste de rainha, princesa, que nosso carnaval a gente pula no quarto.
Escrito por Gabriel às 14h31
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do amor e do uísque
Uísque é bom, qualquer uísque é bom, até os nacionais te salvam de noites ruins, mas tem uísque que é bom de verdade. Amor é bom, qualquer amor é bom, até os menores te salvam de noites ruins, mas tem amor que é bom de verdade. Se perguntarem por aí, todos querem o melhor uísque do mundo, e todos querem o maior amor dessa vida. Mas isso da boca pra fora. Porque no uísque e no amor, quem quiser o melhor precisa ter coragem de pagar a conta. E aí é que são elas.
Escrito por Gabriel às 15h51
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De mulher ou da mulher?
Coisa de homem, mesmo, é ir atrás de mulher. E melhor ainda, é ir atrás da mulher. Atrás da mulher são poucos que vão. O sujeito, quando está atrás da, vira macho. O sujeito quando se dá conta que é ela, ela é a pequena, ela é o chuchu, o pudim, a azeitona da empada, o queijo do quarteirão com queijo, o trevinho, ela é para atender o telefone com oi, amor, ela é para apresentar para a avó, ela é para ter cinco lindos filhotinhos e ir morar na praia, é aí que o sujeito vira macho. Se prepara como um lutador, o Tyson dos mimos, Hollyfield dos agrados, Maguila do te dou casa-comida-e-cinco-mil-no-cartão. Calça suas luvas, aquece, coloca o calção novo que pediu para a mãe ou a irmã comprar e sobe no ringue. Se esquiva das primeiras respostas atravessadas, foge dos amanhã-eu-não-posso, pula das lembranças que elas tem de outros machos e vai confiante para o segundo assalto. Aguenta mais alguns socos, um no queixo, não importa, alguém falou que ia ser fácil? E no terceiro round, homem que é macho, e sujeito quando vai atrás da mulher vira macho, não agüenta e joga a adversária nas cordas, e agarra, e beija, e se declara, e faz ela gostar. E aí vai malemolente, certo que a luta vai ser dura, que a luta ta difícil, mas vai, pode dar certo, há chances, há chances, acho que vai dar, olha lá, vitória, vitória! E aí você toma uma de direita no escutador de novela e vai pro chão. E de lá não sai. Conta um, dois, dez segundos, dois meses, conta o quanto quiser, seu juiz, que de lá o macho não sai. Perder a mulher é levar um de direita na fuça.
Escrito por Gabriel às 00h54
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cafajeste dos vinte e poucos
O cafajeste novo não fez nada de errado. Pode ter fumado qualquer coisa estranha, pode ter passado da conta da cachaça e saído assim-assim do balcão, pode ter olhado para um decote ali e uma saia mais por lá, mas safadeza com outra mulher ele não fez. O cafajeste novo não trai. E tem um medo dos diabos da mulher amada. Outro dia se encantou com uma dessas moças-do-perfume, essas que ficam pelos corredores dos shoppings, top vermelho e camiseta branca, voz manhosa, quer experimentar?, e ela explica e diz o nome do danado, sempre em francês que é pra dar mais charme, e ela explica que não há cheiro melhor para homem carregar por aí, e espirra um pouco no papelzinho, e passa no pulso, um pouco no pescoço, gostou?, ah, é uma delícia, adorei, amanhã eu passo e compro, e tchau, tchau. E só foi no fim do expediente que levantou de um pulo só, ai meu Deus, fodeu, fodeu, agora fodeu tudo, daqui a pouco vou ver a Dé, e daí?, e daí que estou com esse perfume, e daí?, e daí que ela não vai acreditar nunca que eu fui comprar perfume, e porque não?, porque ela sabe que eu não compro porra nenhuma, nem perfume, nem creme, ai meu Deus, fodeu, fodeu, agora fodeu tudo E não deu outra: enfiou a mão no maço de cigarro vazio, tirou de lá os fumos perdidos e sapecou a essência de cigarro no braço, a fedentina da fumaça no pescoço, e foi a pé para o bar da esquina, que é para chegar suado e virar uma, e virar duas, e deixou o tempo passar, quinze minutos contados. Virou a terceira cachaça e foi ao encontro da amada. Chegou atrasado, suado, boca de cachaça e cheiro de cigarro. Levou a bronca que levava sempre. E bronca de sempre não dói nada.
Escrito por Gabriel às 16h19
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Escritório do samba
E a Maria foi contratada para fazer faxina, uma vez por semana, no escritório do samba. Estranhou os sete ao redor de uma mesa, uns escrevendo, outros com o violão, outros apenas com saudade. Estavam trabalhando, porque trabalhavam fazendo samba.
E notou um armário grande no centro da sala. O contratante, de chapéu e terno branco, enxugou o suor da testa com seu lenço e foi logo explicando:
- Na primeira gaveta guardamos nossos acordes, são tão poucos que você não vai ter trabalho nenhum, e dificilmente chegam notas novas, já trabalhamos bem com o que temos, e cá entre nós, tem samba que fica melhor vazio. Na segunda guardamos as palavras, colecionamos faz é tempo, são ossos do ofício, ouviu uma palavra nova?, guarda, pescou uma rima em uma conversa da outra mesa?, guarda, e já são tantas que a gaveta não abre direito, emperra, e lembre-se: tome cuidado com elas, algumas são tão frágeis que arriscam quebrar. A terceira gaveta nós enchemos de amores, loiras, morenas, ruivas, nada dá mais certo para um samba que uma mulher que precisamos esquecer, e pra esquecer, escrever, tocar e cantar, cantar e cantar.
- E porque o cadeado na última gaveta?
- É que lá a gente guarda as partes felizes de nossas vidas. Não abra, ouviu?
- Não?
- Nunca! Alegria faz um mal para os sambas que você nem sabe.
Pela Maria, tudo bem.
Menos uma para limpar.
Escrito por Gabriel às 15h57
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ô lá em casa
"Preciso colocar uma micro-saia e passar em uma construção", diz a amiga rechonchudinha, garbosa e saltitante como uma borboleta com soluço, recém refeita do último namorado, e berra para a mesa inteira ouvir que só uma obra cheia de pedreiros para levantar a auto-estima, para que o espelho não seja tão cruel, para lembrar que quem gosta de osso é cachorro, e quem passa fome não pára em pé - e nem fica acordada para dar a segunda antes de dormir.
- Quero cantada mal educada, pede a pequena.
Cantada do tipo ô lá em casa, ah, se eu fosse homem, casa comigo, ô delícia. E eles, os trovadores da putaria, ainda guardam para as mais experientes as melhores tiradas, principalmente se acompanhadas de filhos pequenos, com uma mãe dessas eu mamava até os quarenta, dá chupeta, dá chupeta pro neném não chorar.
E um gordo canadense que anda por essas bandas e adora uma comparação de sua terra prometida com o Brasil, não entende muito bem o que é isso. Sempre com indiretas para lá de sem graça à graciosa secretária, sempre com um português mal acabado, vê com outros olhos o ô lá em casa dos andaimes.
- Você ia gostar do Canadá. Lá, por exemplo, se você passar por uma obra e alguém gritar "ô gostosa!", você pode se sentir intimidada. E aí, é só chamar a polícia que eles estão fritos.
Pois é de se imaginar as magrelas sem-sal, nariz fino virado para o céu, passando com seus gambitos finos e suas bolsas Prada por uma obra - dá quase pra ver todos os pedreiros de terno e gravata, com suas marmitas recheadas de caviar e seus elogios clássicos, madame formosa, por obséquio, permita-me um elogio, estás garbosa e sorridente, apaixonante.
Já não está na hora de traduzirem Nelson Rodrigues pro canadês?
Eu acho que está.
Escrito por Gabriel às 16h05
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Maria gasta-água
o apelido da Maria, a da esquina, era Maria gasta-água.
era um tal de, dia sim e o outro também, e lá vinha a Maria de mangueira na mão, saia mais curta que salário no fim do mês e botas de plástico, vermelhas, uma elegância só. e não dá para reclamar do decote da blusa amarela, generoso, a se ver as sardinhas do colo lá da outra esquina.
e nem ligava para as brincadeiras da molecada da vizinhança, lá vai a Maria lavar a calçada de novo, aê Maria gasta-água!, vai gostar da calçada assim lá longe, Maria!, acho que vou almoçar aí no chão, porque a frente da sua casa deve estar mais limpa que os pratos lá de casa.
- larga a mangueira, Maria!
e a Maria se fazia de surda, e recolhia as folhas, e olhava para todo mundo - passava homem de carro e já dava um sorrisinho, passava motoboy e lá tava a Maria abaixando para pegar a vassoura, e até de ônibus tinha cara que gritava que podia brecar o busão, ô motorista, vou descer na esquina da gasta-água.
caía a tarde, e a Maria fechava a torneira e entrava em casa.
- porque onde já se viu mulher de família deixar a calçada suja?
Escrito por Gabriel às 01h49
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embriaga-te
isso que eu tenho aqui não se vende em supermercado e nem no camelô, nem madame compra no free-shop ou na Daslu, nem empresário acha em puteiro chique ou no fundo do green label, nem os fodidos acham na cerveja-esmola ou no salgado que deixaram colocar na conta, nem os olha-como-sou-junkie da Augusta acham no pó de dez ou na bala de trinta, e nem os olha-como-sou-intelectual acham na orelha que leram do Nietzsche.
é paz.
e dá o maior barato.
Escrito por Gabriel às 11h15
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blog prova do famoso bolovo do bar da Vesga e conta como foi
se você perguntar se é de hoje, provavelmente ouvirá uma resposta atravessada, de hoje não é, é de ovo. se você tentar pagar com uma nota de dez, provavelmente não vão ter troco, e aí não vão te servir. e comer o bolovo é igual ir para o quarto com a Glória Maria: se você olhar direito, não come. se você pensar no que está para fazer, não come. se você liga para o que vão dizer de você, não come.
ele é o maior dos bolinhos do balcão, ele é cascudo, ele é grande e mais recheado que a Sheila Carvalho - é quase do tamanho de uma bola de bocha, se é que você sabe o que é bocha. só de pegar com o guardanapo, o bichão já empapa o papel inteiro de óleo, e se você não tiver a sorte de achar outra folha, vai ter de limpar os dedos na calça.
tem medo de infarto? é nutricionista? segue religiosamente os conselhos do Drauzio Varella? não? então vai. tira um e cinqüenta do bolso, pede, não olha (não olha, porra!) e come.
na primeira mordida, ta lá o ovão cozido, que se derrete todo quando chega à boca. lábios brilhantes – é óleo pra cacete! – ainda tocam suavemente um pouco de carne moída, e a massa-misteriosa não chega a ser grudenta, e parece mesmo ser feita de farinha de trigo, batata, água e tempero, e Deus queira que só tenha isso mesmo. é até crocante, se o pensamento for positivo.
as vantagens do bolovo são enormes: você vai ver que é bom para memória, porque vai lembrar dele até na terça que vem. você vai ver que é bom para auto-estima, porque barbado que come o bolovo não foge de babaca criado a croissant. você vai entender um pouco da alma feminina, porque as cólicas virão em grande estilo.
e você vai aprender que o melhor mesmo é parar de beber.
ou você já viu alguém sóbrio pedindo bolovo?
Escrito por Gabriel às 18h05
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direito de resposta
isso aqui não é cachaça.
tem cheiro de cachaça, desce igual cachaça, tá no copo pequeno, copo de cachaça, é doce feito cana, feito mel, feito cachaça, e até na conta, a dolorosa que uma hora sempre chega, até na conta escreveram que é cachaça, escreveram, mas não é.
é saudade.
Escrito por Gabriel às 12h49
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