MEU bar

Não faz muito tempo não, um amigo de copo pedia atenção, falava inconformado de tudo, tudo bem perder a moça, tudo bem que ela namora, tudo bem que ela esteja em outra, mas aqui no bar não, aqui no MEU bar não, trazer aquele sorriso de eu já te esqueci até o MEU balcão não pode, não pode, não pode.

 

E é bem por aí, meu caro.

 

Quando a princesa resolve que não dá mais, e com a classe de sempre enfia o salto fino na buzanfa do rapaz, pé na bunda, fim de jogo, game over, tem mais é que seguir com a vida, ir atrás de outros barbados, e ele que se coloque de pé, e ele que tente ligar, mandar e-mail, pombo correio, o que for, não dá mais, não deu, paciência, é um para um lado e um para outro, e assim é que é.

 

Mais a alma masculina, simples como dormir no fim de um jogo ruim de futebol no domingo à tarde, pede respeito ao bar, e só isso.

 

Não estamos falando aqui de um bar qualquer, veja bem, meu velho, se resolveu beber em outras terras, outras esquinas, e lá encontrou o antigo amor bebericando com um outro rapaz, paciência, meu filho, enfia o rabo entre as pernas e bote-as para andar, camelar até o botequim mais longe possível da alegria da mulher amada, e vá chafurdar-se na cerveja do desamor sem que ela veja, longe, longe.

 

Mas o bar que é nosso, aquele que a gente pega cerveja direto na geladeira, aquele que NÓS apresentamos à dama, aquele não pode. Tudo bem que ela também tenha feito suas amizades por lá, tenha até a sua mesa, e pede até o de sempre, me vê o de sempre, de tanto que já bebeu e brindou saúde a um amor que já passou, mas no nosso bar não pode não.

 

Porque é lá que o lascado fala mal de sua ex-garota, que ela não tem coração, e chora os “e agora?”, faço o quê, e bebe, e bebe, e bebe, e sai carregado pelo psicólogo de plantão, ou um amigo velho, ou o garçom, ou o amigo da vez, te considero pra caralho, a gente se conheceu hoje mas eu te considero pra caralho, vem aqui, amigo, pega um copo que eu vou te contar sobre a mulher que levou a minha vida embora.

 

Beba, viva, alegre-se, minha filha, mas não, não aqui no nosso bar, aqui não.

 

É aquela coisa de etiqueta, darling.

 

Ser feliz aqui, no meu balcão, não.



Escrito por Gabriel às 12h25
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a nêga dos que estão sem nêga

 

logo ela, bem ela, ganhou uma flor murcha do RH da empresa, uma rosa, e um bom dia e feliz dia das mulheres!, e teve de sorrir um amarelo-nicotina vazio de tudo, sorrir para estes homens estranhos que tem o calendário na ponta da língua, mania do inferno, é dia do livro, dia da flor, dia da puta que o pariu, dia da mulher, como assim, cadê a rosa de ontem, cadê a de amanhã?, dia das mulheres é uma piada, amigo-calendário, dia da mulher o quê, e que dia que não é?

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diz o amigo bêbado, apoiado na barriga-pró de tantas noites azeitadas na Nêga Fulo, a cachaça, a nêga dos que estão sem nêga, diz o bêbado que o peito só dormirá sossegado quando criarem um dia da saudade, já dizia Raul, no meio de seus devaneios chapados, hoje é feriado, dia da saudade, e nesse dia todas as mulheres que sumiram da sua vida apareceriam, e apareceriam do jeito que te deixaram, se de cabelo curto, cortariam as madeixas só para te ver, e se te deixaram de quatro, amigo, de quatro brotariam na sua porta, e só assim o peito dormiria sossegado.

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a economia de downtown, do lixo da cidade, da São Paulo escura, deve-se a uma só combinação: pau duro e miolo mole.

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foi nesse dia, ano passado, ressaca das mais feias, das brabas, e foi você quem curou, engov da alma, telefonema certeiro, voz rouca de quem acabou de acordar, de quem está com tanta paz que quer passar um pouquinho para você também, de graça, pode pegar, e liga, como se adivinhasse, liguei para falar oi, e o oi ta falado, agora durma, durma, que amanhã é outro dia.

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e desce mais uma, amizade, que o papo está bom. o fígado é que não sei não.



Escrito por Gabriel às 11h53
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