Caê-frapê

 

 

Quem tem pau, sabe:

 

há um meio termo, um estágio necessário, há um momento onde o amigão não está duro e nem mole, nem desanimado aninhado na ceroula, a descansar em cima do saco, e nem todo pimpão e pronto pra briga depois dos primeiros amassos com a vizinha, dentro do carro.

 

Antes de meu comparsa de bebedeiras nascer, isso aí não tinha nome.

 

Agora tem: chama pau frapê.

 

Ou seja: não está mole nem duro? Está frapê.

 

Para a dona de casa que não ligou o nome à pessoa, o frapê é uma espécie de milk-shake e tem aquela consistência malemolente, bem brasileira, nem pra lá e nem pra cá. Tem muito rapaz por aí que não tem cara e coragem para mostrar o dito cujo à namorada no estágio zero, murcho, triste, com medo do sol: antes de ir até o banho, pelo menos no começo da convivência, tem homem que passa pela moça a fingir que está mole.

 

Mas não está, está maior do que mole, menor do que duro: está frapê.

 

Lembrei disso ao me deparar com mais uma do meu, do seu, do nosso Caetano Veloso: ao tentar se explicar das papagaiadas da lei Rouanet, veio com umas boas – entre elas, o sessentão declamou ter saudades do “jato de urina forte e as ereções firmes”.

 

Ou seja: Caê está frapê.

 

Tem coisa mais aterrorizante que pensar o músico, com um pacote de camisinhas na mão, dar um vem cá minha nêga na moça e falar com seu baianês típico:

 

- Minha linda, hoje vai rolar sexo. Ou não. 

 

E até olhando para baixo, depois de uma hora de tentativas, cantarolando seu deprimente e famoso “e agora, que faço eu da vida sem você?”.

 

É de se pensar.

 

Ou não.



Escrito por Gabriel às 11h48
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já?

 

Ah, mas já?

Gosto quando dizem essa frase. É o que diz o boa vida, o romântico, o apaixonado. E não o do tipo amador, que acredita que tudo vai durar pra sempre: quem fala o ah, mas já? tinha certeza, desde o início, que ia acabar dando merda.

Pode ser em um exame de colesterol aos vinte e seis anos. Pode ser quando sua senhora te liga, que é hora de pegar o filho na natação, bem no meio da terceira cerveja e quando o papo tava ficando bom. Pode ser quando seu time começa a vender os melhores jogadores para a Europa. Pode ser quando você tá quase conseguindo convencer a moça e, pronto, as amigas vão embora, ela tem que ir junto, anota meu telefone, e até outro dia.

Porque é bom aquele espaço em que, apesar de saber o que vai acontecer no final, so far so good, até agora, meu filho, ta tudo bem. Depois é depois, depois cuido disso. É quando você beija a moça gostosa da rua de cima, que tem pai delegado e marido traficante. É quando você descobre que está na torcida errada, mas a torcida errada ainda não se deu conta do fato. É quando você paga a viagem no crédito, e ainda falta para cair, e dá aquela impressão que foi de graça.

Ou é o que pensava o amigo oculto, a quem dedico esta crônica, que namorava duas lindas irmãs, sem que uma soubesse da outra, numa cafajestagem de filme de cinema do centro.

Uma acaba de descobrir, e as duas lhe enfiaram o pé.

Ah, mas já?

Já sim.

Esperava mais quantos anos nessa, desgraçado?



Escrito por Gabriel às 01h49
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