Quando o vento levanta uma saia

Você, meu amigo, que acha que o farol fica vermelho sempre na tua vez, ou bebem a última gelada do isopor logo quando você chega com sede, que o ingresso acaba, que o metrô fecha, que o maço termina. Você, meu amigo: já presenciou um vento desses que levantam uma saia justamente na hora que você passa?

Não vale Marilyn Monroe e outras deusas, essas enfeitiçaram todos, vento que bate e saia que levanta, muito que bem, memória coletiva dos barbados todos, mas tudo como mandou o diretor, o ângulo, a câmera, o anunciante. Aqui também não vale vento na saia da moça que é amiga do voyeurismo, a amiga que adoramos, elas que são sempre a favor do que é bonito tem que se mostrar, que se abrem toda ao menor sinal de olhar masculino.

Elas são ótimas. Todos gostamos delas.

 Mas não, para o caso da saia, não vale.

Aqui dá-se com a moça que não queria ter mostrado nada, pernas talvez, joelhos quem sabe, mas é só. Ela, intimidade enrolada na toalha e em frente ao guarda-roupa, quando escolheu sair assim de casa, queria nos matar com aquilo que não vemos, com nossa cabeça que não para, as histórias que contam as saias justamente pelo pouco que não mostram.

Aí, você passa. Bate o olho, nem percebe que é ela que está lá. E é nesse segundo que vem um vento, ironia das boas e saia para o ar, segundos de puro deleite, o de ver o espetáculo ali, sem lentes para atrapalhar, e da felicidade de estar lá naquele minuto, naquele segundo, naquele lugar.

Pensa, rapaz: é a mesma lógica de estar andando aí pela cidade e, pronto, cai um vaso nessa tua cabeça oca e te leva dessa para outra. Coisa de cinco segundos a mais ou a menos de banho, de conversa com a patroa, de briga com o vizinho, de demora a colocar o sapato, de cerveja com o bêbado camarada e pronto, o vaso teria caído um pouco para lá ou para cá e, em vez de uma cabeçorra amassada, sobraria só uma boa história de bar – e motivo para beber, afinal, quase um vaso te pega, andando por aí, do nada.

Estar lá no momento que o vento levanta a saia é saber que, mesmo na cidade do metrô, do ingresso e do farol, o acaso também sorri. E pra você.

O rosto lindo, vermelho, sorriso envergonhado de será que alguém me viu, vale mais do que saber se era branca, vermelha ou preta. Ela que ajeita o cabelo, segura a bolsa e dá seus passos em direção sabe-se lá para onde, olha para frente e só para frente, segura o riso, quer chegar logo em casa e contar a peripécia à mãe, tia, amiga, amigas, amigos, namorado, vai lá se saber. Em cada passo apressado uma poesia, em cada quase-risada uma bossa, nova.

E sim, era preta.



Escrito por Gabriel às 19h54
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


Histórico